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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Do início da carreira até a chegada na Unilab



O objetivo deste texto é contar um pouco sobre a implantação dos projetos e cursos de língua inglesa na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (doravante Unilab), uma universidade federal criada pelo governo brasileiro em 2010[1] com o objetivo de estabelecer um intercâmbio acadêmico, científico e cultural entre países lusófonos.
Em sua lei de criação, a Unilab possui como missão institucional específica formar recursos humanos para contribuir com a integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Essa comunidade é integrada por Brasil, Portugal, Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. E devido a essa vocação internacional, a língua inglesa passou a ser uma das principais ferramentas para atender as necessidades de comunicação advindas dos pactos de cooperação internacional dentro e fora desta nova instituição de ensino superior.
No dia 20 de agosto de 2012, tomei posse como Professora Adjunta da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. A partir daí, minha história se fundiu em definitivo à história dela. Posso afirmar que este foi um dos dias mais felizes da minha vida porque eu estava chegando em uma Universidade que havia acabado de ser criada e com um projeto acadêmico inovador, além do fato de eu estar, literalmente, voltando para casa. Além disso, eu fui a primeira professora da área de Língua Inglesa na Instituição.
Assumi meu novo cargo ciente de todas as responsabilidades inerentes aos desafios naturais para um professor recém ingresso em uma universidade com um projeto multicultural ambicioso.
Para entendermos como eu cheguei até aqui, deixem-me falar um pouco sobre a minha trajetória. Em 1996, passei em 2º lugar para cursar Letras Português-Inglês e respectivas literaturas na Universidade Federal do Ceará. Embora eu tivesse passado também no curso de Ciências Econômicas em outra universidade de Fortaleza, eu escolhi Letras, contrariando as expectativas de minha família. Minha mãe, surpresa com minha decisão, disse-me: “Menina teimosa...Apesar dos meus conselhos, você decidiu ser professora...”. E eu retruquei: “Se eu decidi ser professora, mamãe, a culpa é da senhora”. Ela baixou a cabeça, como se assentisse com tristeza. Afinal de contas, ela sabia a parcela de culpa que tinha. Como seria diferente? Eu achava o máximo vê-la ministrando aula para uma turma de adolescentes que ficavam imóveis em suas carteiras enquanto ela explicava sobre algum tema da disciplina de História, como, por exemplo, Revolução Francesa[2].
Minha formação em língua inglesa ocorreu em dois momentos principais: a partir dos treze anos, comecei a fazer um curso de inglês de forma auto didática. Sempre me aventurava a aprender sozinha alguma coisa. Assim foi com o violão.  Embora eu estudasse numa escola particular, eu estudava com bolsa e nunca tive a oportunidade de fazer um curso de inglês particular pago nessa época pelo fato de ser muito caro. O que eu aprendi de língua inglesa naquela fase eu devo muito às professoras do colégio, aos livros, aos dicionários, às fitas-cassetes e aos LPs que continham passagens de língua inglesa. A parte mais significativa do meu aprendizado na língua se deu quando passei, via teste de nível, para fazer o 5º semestre do curso regular da Casa de Cultura Britânica. Outra prática valorosa da língua foi ter tido contato com falantes nativos – em geral norte-americanos - quando eu ensinava Português para Estrangeiros durante o curso de Letras. Uma viagem providencial ao Canadá no ano de 2003, ainda quando eu estava a cursar Mestrado, me ajudou bastante a desenvolver as minhas habilidades de fala e escuta.
Ainda me lembro vividamente da primeira vez que passei em frente ao Centro de Humanidades da UFC, mais exatamente em frente às casas de cultura. Eu tinha por volta de sete anos e minha mãe estava apressadamente a caminho do trabalho, me rebocando pelo braço. Ao descermos na parada de ônibus, deparávamos com aquele bosque convidativo no meio da barulhenta e poluída avenida da Universidade. Através das grades verdes que rodeavam aquelas casas pintadas na cor salmão com arquitetura elegante, meus olhinhos de criança curiosa podiam ver um caminho de tijolos cinzas que levavam a um pequeno bosque. Anos depois, aquele bosque iria ser batizado de Moreira Campos em homenagem ao saudoso mestre do curso de Letras. Finalmente, mais de dez anos depois, com toda calma do mundo, entrei numa manhã de segunda-feira nele para assistir à minha primeira aula de Introdução à Linguística com a inesquecível Professora Ana Cristina Pelosi, que seria alguns anos depois minha orientadora de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFC.
Foram quase cinco anos na graduação, que ainda arrisquei conciliar com uma carreira artística de cantora. Orgulho-me de ter me apresentado na minha própria calourada de Letras e de ter aberto Calourada Geral da UFC naquele mesmo semestre (1996.2) com vários nomes famosos da época como Aparecida Silvino, Pingo de Fortaleza, Katia Freitas e outros nomes. Meses depois, eu já tinha minha própria banda. Tocávamos músicas só em inglês. Na realidade, eu fui convidada a cantar na banda por ser professora de inglês e não por ter uma bela voz. Até hoje ainda me arrisco a dedilhar uns acordes no violão. Aliás, o violão virou meu principal recurso lúdico de ensino de língua inglesa após eu concluir a faculdade.
No curso de Letras conheci muita gente marcante e que ficou até hoje em minha vida. Um belo exemplo é a minha colega e amiga, Professora Ângela Araújo, uma das organizadoras do projeto “Yes, nós temos memória”. Também tive professores de língua inglesa inesquecíveis, como a professora Patricia Ann Vaughan, o saudoso professor Marcus Dodt, a professora de Literatura, Odirene Nogueira, e Vládia Cabral Borges, hoje em dia, atualmente diretora do Centro de Humanidades da UFC.
Minha carreira como professora de inglês começou muito cedo quando eu ainda estava no segundo ano da faculdade. Comecei a trabalhar para ajudar minha mãe a pagar as contas.  Trabalhava em um curso particular de inglês pouco conhecido na cidade todos os dias da semana à tarde e à noite para ganhar um salário mínimo ao fim do mês. Ainda no início da faculdade de Letras, lembro que meu sonho era ser professora da Casa de Cultura Britânica da UFC, indiscutivelmente um dos mais bem conceituados cursos de língua inglesa do Estado do Ceará. Nunca imaginei que exatamente oito meses depois da minha formatura eu estaria lecionando na Casa de Cultura Britânica (doravante CCB) como professora substituta. Ah, como eu admirava aqueles professores simpáticos, cumprimentando seus alunos em inglês enquanto carregavam um toca-fitas gigante para lá e para cá no meio do bosque. Outros, além de carregar o rádio, ainda levavam realia[3] para a sala de aula. Era o meu caso e o caso da minha colega de CCB, Ângela Araújo. 
Fiquei trabalhando na CCB até o dia em que recebi uma bolsa de pesquisa do CNPq para concluir o curso de Mestrado em Linguística na UFC. Com muito pesar por ter que abandonar a CCB, tive que me dedicar exclusivamente às atividades de pesquisa de Mestrado. Logo depois, engatei o curso de Doutorado. Tive que renunciar ao magistério enquanto estava com a bolsa de Doutorado também. Inconformada com isso, ainda antes de obter o título de doutora, prestei concurso para Universidade Estadual do Piauí, sendo selecionada em primeiro lugar para ministrar aulas no curso de Letras-Inglês.
Terminei meu Doutorado em outubro de 2010, em meio a um período bem conturbado por dois motivos. O primeiro: o fato de eu ter escolhido tratar de um tema bastante desafiador (Redes Neurais Artificiais aplicada ao ensino de pronúncia). O segundo: a difícil situação familiar. Minha mãe, logo no ano de início do meu Doutorado, em setembro de 2006, sofreu um AVC hemorrágico que a deixou presa à uma cadeira de rodas. Como não tinha irmãos nem outros familiares para cuidarem dela comigo, muitas vezes tive que faltar às aulas do doutorado para ficar cuidando dela quando uma cuidadora irresponsavelmente faltava. Por várias vezes, pensei em largar tudo para me dedicar exclusivamente à sua reabilitação. Ainda bem que não desisti.
O curso de Doutorado foi um tempo difícil, de sacrifício e com recursos materiais quase insuficientes para garantir as contas em dia. Ao mesmo tempo, eu tinha muita fé e esperança num futuro melhor.  Não sei de onde brotou tanta força e determinação necessária para conseguir conciliar as atividades de pesquisa acadêmica e ensino com a rotina familiar. Deve ter sido lembrar do brilho que minha mãe tinha nos olhos quando estava em sala de aula.
Naqueles anos compreendidos entre 2009 e 2012, eu residia no Piauí e ensinava várias disciplinas do currículo de formação de futuros professores de Inglês a grupo comprometido de alunos de Letras-Inglês na cidade de Piripiri. Também era Coordenadora de curso e tinha um projeto de pesquisa em andamento. Mesmo com o meu amadurecimento nas áreas de formação e prática docente de língua inglesa e a minha produção intelectual indo de vento em popa, eu me sentia incompleta por estar longe da minha cidade. Vivi momentos de solidão que só eram amenizados quando eu estava em sala de aula cumprindo meu ofício. A sala de aula é realmente um lugar mágico!
Ao fim de 2011, após vários momentos de reflexão sobre a minha carreira, eu decidi fazer um curso no exterior para me qualificar no ensino de língua inglesa. Como destino, escolhi a Inglaterra para fazer o curso para obter o Certificado de Ensino de língua inglesa para adultos, mais conhecido como CELTA (Certificate in English Language Teaching to Adults). Passei minhas férias de 30 dias estudando e ministrando aulas na International House de Londres, uma escola de idiomas com proposta multicultural licenciada pela Universidade de Cambridge, no meio de um clima invernoso com temperaturas entre -6° e -12°C. Logrei êxito no curso, peguei meu certificado e voltei correndo para a minha rotina de aulas no Piauí para colocar em prática todas as novidades sobre Metodologia de Ensino de língua inglesa que eu havia aprendido. Ao chegar no Brasil percebi que algo havia mudado; a minha percepção de mundo havia se tornado maior e eu precisava explorar outras culturas. O fato de ter ministrado aulas de inglês para alunos oriundos de vários continentes contribuiu enormemente para isso ocorrer.
Em março de 2012, soube que uma universidade federal recém instalada no Maciço de Baturité, no interior do Ceará, estava selecionando novos professores. Era a minha chance de voltar para casa. Sem pestanejar, fiz minha inscrição e comecei a estudar com afinco. Estava com o inglês “afiado” pois havia passado um mês inteiro em contato direto com o inglês RP[4]. Em maio de 2012, eu prestei concurso para a Unilab e, mais uma vez, sucedi passando no certame. Comemorei efusivamente meu retorno ao Ceará.
Depois da posse na Unilab em agosto de 2012, com a transição já feita e com novos desafios lançados, bateu aquela saudade dos meus alunos da Estadual do Piauí. Também sinto falta de ensinar futuros professores de inglês e discutir com eles teorias de ensino e aprendizagem de LE (língua estrangeira), bem como as suas adaptações aos contextos multiculturais. Já recebi agradecimentos de ex-alunos em solenidades de formatura ou até mesmo quando esses alunos passaram em concursos para serem professores da Secretaria de Educação, tanto no Piauí quanto aqui no Ceará. Uma das coisas mais gratificantes nessa vida é ver um ex-aluno ter êxito na carreira do magistério!
Uma das minhas primeiras atividades docentes na Unilab foi ministrar a disciplina optativa de Língua Inglesa I no curso de Bacharelado em Humanidades (doravante BHU), uma espécie de curso superior básico, todavia de caráter fundante, para os estudantes que mais tarde quisessem completar seus estudos nas termalidades de Antropologia, História, Pedagogia e Sociologia. Outra tarefa foi a de coordenar e ministrar aulas no Projeto de extensão ENGLISH CLUB. As sementes para a posteridade estavam lançadas ali naquele projeto de extensão, pois ele foi o embrião de um projeto institucional que compreende em sua expansão mais de vinte cursos de línguas, com funcionamento análogo ao das casas línguas sediadas nas principais universidades brasileiras, como é o caso das Casas de Cultura da UFC.
Pouco tempo depois, eu assumi a coordenação do curso de Letras-Língua Portuguesa. Lá, ministro de forma orquestrada e com ementas cuidadosamente preparadas, ao lado dos meus colegas da área, as disciplinas de Língua Inglesa para Fins Específicos 1, 2 e 3 (ver ANEXO I - Ementas e Bibliografia).
A primeira turma do curso de Letras-Língua Portuguesa foi criada em novembro de 2012, o que contabiliza exatamente um ano e seis meses da minha vigência na coordenação. Aparentemente, pode ser considerado pouco tempo, mas ao apresentarmos o que já foi feito desde seu início até agora, entender-se-á a força, a garra e a motivação de todos os profissionais envolvidos neste grande projeto acadêmico.


[1] A Lei Nº 12.289, de 20 de Julho de 2010, dispõe sobre a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.

[2] Minha mãe se formou em História pela UECE e foi professora dessa mesma disciplina na SEDUC. Entretanto, anos depois, por causa das exigências do sistema educacional do Estado, ela passou a ministrar aulas pelo sistema de TV (Teleduc), fato que a desmotivou bastante porque isso exigia dela habilidades em outras disciplinas como Matemática e Língua Inglesa, as quais ela não havia se capacitado a ministrar.

[3] Realia: objetos da vida real usados na sala de aula. 

[4] Received Pronunciation (também conhecido como R.P., inglês Oxford ou Inglês da BBC) é o nome dado ao sotaque padrão da língua inglesa utilizado no Reino Unido. Estudantes estrangeiros de inglês britânico aprendem essa modalidade de inglês nas escolas. Dicionários de língua inglesa produzidos no Reino Unido também adotam o Received Pronunciation como sotaque padrão (Fonte: Wikipedia)