O objetivo deste texto é contar um pouco sobre a implantação
dos projetos e cursos de língua inglesa na Universidade da Integração
Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (doravante Unilab), uma universidade
federal criada pelo governo brasileiro em 2010[1]
com o objetivo de estabelecer um intercâmbio acadêmico, científico e cultural
entre países lusófonos.
Em sua lei de criação, a Unilab possui como missão
institucional específica formar recursos humanos para contribuir com a
integração entre o Brasil e os demais países membros da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa. Essa comunidade é integrada por Brasil, Portugal,
Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
E devido a essa vocação internacional, a língua inglesa passou a ser uma das
principais ferramentas para atender as necessidades de comunicação advindas dos
pactos de cooperação internacional dentro e fora desta nova instituição de
ensino superior.
No dia 20 de agosto de 2012, tomei posse como Professora Adjunta
da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. A
partir daí, minha história se fundiu em definitivo à história dela. Posso
afirmar que este foi um dos dias mais felizes da minha vida porque eu estava
chegando em uma Universidade que havia acabado de ser criada e com um projeto acadêmico
inovador, além do fato de eu estar, literalmente, voltando para casa. Além
disso, eu fui a primeira professora da área de Língua Inglesa na Instituição.
Assumi meu novo cargo ciente de todas as responsabilidades
inerentes aos desafios naturais para um professor recém ingresso em uma
universidade com um projeto multicultural ambicioso.
Para entendermos como eu cheguei até aqui, deixem-me falar um
pouco sobre a minha trajetória. Em 1996, passei em 2º lugar para cursar Letras Português-Inglês
e respectivas literaturas na Universidade Federal do Ceará. Embora eu tivesse
passado também no curso de Ciências Econômicas em outra universidade de
Fortaleza, eu escolhi Letras, contrariando as expectativas de minha família.
Minha mãe, surpresa com minha decisão, disse-me: “Menina teimosa...Apesar dos meus conselhos, você decidiu ser professora...”.
E eu retruquei: “Se eu decidi ser
professora, mamãe, a culpa é da senhora”. Ela baixou a cabeça, como se
assentisse com tristeza. Afinal de contas, ela sabia a parcela de culpa que
tinha. Como seria diferente? Eu achava o máximo vê-la ministrando aula para uma
turma de adolescentes que ficavam imóveis em suas carteiras enquanto ela
explicava sobre algum tema da disciplina de História, como, por exemplo,
Revolução Francesa[2].
Minha formação em língua inglesa ocorreu em dois momentos
principais: a partir dos treze anos, comecei a fazer um curso de inglês de
forma auto didática. Sempre me aventurava a aprender sozinha alguma coisa.
Assim foi com o violão. Embora eu
estudasse numa escola particular, eu estudava com bolsa e nunca tive a
oportunidade de fazer um curso de inglês particular pago nessa época pelo fato
de ser muito caro. O que eu aprendi de língua inglesa naquela fase eu devo muito
às professoras do colégio, aos livros, aos dicionários, às fitas-cassetes e aos
LPs que continham passagens de língua inglesa. A parte mais significativa do meu
aprendizado na língua se deu quando passei, via teste de nível, para fazer o 5º
semestre do curso regular da Casa de Cultura Britânica. Outra prática valorosa
da língua foi ter tido contato com falantes nativos – em geral norte-americanos
- quando eu ensinava Português para Estrangeiros durante o curso de Letras. Uma
viagem providencial ao Canadá no ano de 2003, ainda quando eu estava a cursar
Mestrado, me ajudou bastante a desenvolver as minhas habilidades de fala e
escuta.
Ainda me lembro vividamente da primeira vez que passei em
frente ao Centro de Humanidades da UFC, mais exatamente em frente às casas de
cultura. Eu tinha por volta de sete anos e minha mãe estava apressadamente a
caminho do trabalho, me rebocando pelo braço. Ao descermos na parada de ônibus,
deparávamos com aquele bosque convidativo no meio da barulhenta e poluída avenida
da Universidade. Através das grades verdes que rodeavam aquelas casas pintadas
na cor salmão com arquitetura elegante, meus olhinhos de criança curiosa podiam
ver um caminho de tijolos cinzas que levavam a um pequeno bosque. Anos depois,
aquele bosque iria ser batizado de Moreira Campos em homenagem ao saudoso
mestre do curso de Letras. Finalmente, mais de dez anos depois, com toda calma
do mundo, entrei numa manhã de segunda-feira nele para assistir à minha
primeira aula de Introdução à Linguística com a inesquecível Professora Ana
Cristina Pelosi, que seria alguns anos depois minha orientadora de doutorado no
Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFC.
Foram quase cinco anos na graduação, que ainda arrisquei
conciliar com uma carreira artística de cantora. Orgulho-me de ter me
apresentado na minha própria calourada de Letras e de ter aberto Calourada
Geral da UFC naquele mesmo semestre (1996.2) com vários nomes famosos da época
como Aparecida Silvino, Pingo de Fortaleza, Katia Freitas e outros nomes. Meses
depois, eu já tinha minha própria banda. Tocávamos músicas só em inglês. Na
realidade, eu fui convidada a cantar na banda por ser professora de inglês e
não por ter uma bela voz. Até hoje ainda me arrisco a dedilhar uns acordes no
violão. Aliás, o violão virou meu principal recurso lúdico de ensino de língua
inglesa após eu concluir a faculdade.
No curso de Letras conheci muita gente marcante e que ficou
até hoje em minha vida. Um belo exemplo é a minha colega e amiga, Professora Ângela
Araújo, uma das organizadoras do projeto “Yes, nós temos memória”. Também tive
professores de língua inglesa inesquecíveis, como a professora Patricia Ann
Vaughan, o saudoso professor Marcus Dodt, a professora de Literatura, Odirene
Nogueira, e Vládia Cabral Borges, hoje em dia, atualmente diretora do Centro de
Humanidades da UFC.
Minha carreira como professora de inglês começou muito cedo
quando eu ainda estava no segundo ano da faculdade. Comecei a trabalhar para
ajudar minha mãe a pagar as contas. Trabalhava
em um curso particular de inglês pouco conhecido na cidade todos os dias da
semana à tarde e à noite para ganhar um salário mínimo ao fim do mês. Ainda no
início da faculdade de Letras, lembro que meu sonho era ser professora da Casa
de Cultura Britânica da UFC, indiscutivelmente um dos mais bem conceituados
cursos de língua inglesa do Estado do Ceará. Nunca imaginei que exatamente oito
meses depois da minha formatura eu estaria lecionando na Casa de Cultura
Britânica (doravante CCB) como professora substituta. Ah, como eu admirava
aqueles professores simpáticos, cumprimentando seus alunos em inglês enquanto
carregavam um toca-fitas gigante para lá e para cá no meio do bosque. Outros,
além de carregar o rádio, ainda levavam realia[3] para a sala de
aula. Era o meu caso e o caso da minha colega de CCB, Ângela Araújo.
Fiquei trabalhando na CCB até o dia em que recebi uma bolsa de
pesquisa do CNPq para concluir o curso de Mestrado em Linguística na UFC. Com
muito pesar por ter que abandonar a CCB, tive que me dedicar exclusivamente às atividades
de pesquisa de Mestrado. Logo depois, engatei o curso de Doutorado. Tive que renunciar
ao magistério enquanto estava com a bolsa de Doutorado também. Inconformada com
isso, ainda antes de obter o título de doutora, prestei concurso para Universidade
Estadual do Piauí, sendo selecionada em primeiro lugar para ministrar aulas no
curso de Letras-Inglês.
Terminei meu Doutorado em outubro de 2010, em meio a um
período bem conturbado por dois motivos. O primeiro: o fato de eu ter escolhido
tratar de um tema bastante desafiador (Redes Neurais Artificiais aplicada ao
ensino de pronúncia). O segundo: a difícil situação familiar. Minha mãe, logo
no ano de início do meu Doutorado, em setembro de 2006, sofreu um AVC
hemorrágico que a deixou presa à uma cadeira de rodas. Como não tinha irmãos
nem outros familiares para cuidarem dela comigo, muitas vezes tive que faltar
às aulas do doutorado para ficar cuidando dela quando uma cuidadora
irresponsavelmente faltava. Por várias vezes, pensei em largar tudo para me
dedicar exclusivamente à sua reabilitação. Ainda bem que não desisti.
O curso de Doutorado foi um tempo difícil, de sacrifício e
com recursos materiais quase insuficientes para garantir as contas em dia. Ao
mesmo tempo, eu tinha muita fé e esperança num futuro melhor. Não sei de onde brotou tanta força e determinação
necessária para conseguir conciliar as atividades de pesquisa acadêmica e
ensino com a rotina familiar. Deve ter sido lembrar do brilho que minha mãe tinha
nos olhos quando estava em sala de aula.
Naqueles anos compreendidos entre 2009 e 2012, eu residia no
Piauí e ensinava várias disciplinas do currículo de formação de futuros
professores de Inglês a grupo comprometido de alunos de Letras-Inglês na cidade
de Piripiri. Também era Coordenadora de curso e tinha um projeto de pesquisa em
andamento. Mesmo com o meu amadurecimento nas áreas de formação e prática docente
de língua inglesa e a minha produção intelectual indo de vento em popa, eu me
sentia incompleta por estar longe da minha cidade. Vivi momentos de solidão que
só eram amenizados quando eu estava em sala de aula cumprindo meu ofício. A
sala de aula é realmente um lugar mágico!
Ao fim de 2011, após vários momentos de reflexão sobre a
minha carreira, eu decidi fazer um curso no exterior para me qualificar no
ensino de língua inglesa. Como destino, escolhi a Inglaterra para fazer o curso
para obter o Certificado de Ensino de língua inglesa para adultos, mais
conhecido como CELTA (Certificate in
English Language Teaching to Adults). Passei minhas férias de 30 dias
estudando e ministrando aulas na International
House de Londres, uma escola de idiomas com proposta multicultural
licenciada pela Universidade de Cambridge, no meio de um clima invernoso com
temperaturas entre -6° e -12°C. Logrei êxito no curso, peguei meu certificado e
voltei correndo para a minha rotina de aulas no Piauí para colocar em prática
todas as novidades sobre Metodologia de Ensino de língua inglesa que eu havia
aprendido. Ao chegar no Brasil percebi que algo havia mudado; a minha percepção
de mundo havia se tornado maior e eu precisava explorar outras culturas. O fato
de ter ministrado aulas de inglês para alunos oriundos de vários continentes
contribuiu enormemente para isso ocorrer.
Em março de 2012, soube que uma universidade federal recém
instalada no Maciço de Baturité, no interior do Ceará, estava selecionando novos
professores. Era a minha chance de voltar para casa. Sem pestanejar, fiz minha
inscrição e comecei a estudar com afinco. Estava com o inglês “afiado” pois
havia passado um mês inteiro em contato direto com o inglês RP[4].
Em maio de 2012, eu prestei concurso para a Unilab e, mais uma vez, sucedi
passando no certame. Comemorei efusivamente meu retorno ao Ceará.
Depois da posse na Unilab em agosto de 2012, com a transição
já feita e com novos desafios lançados, bateu aquela saudade dos meus alunos da
Estadual do Piauí. Também sinto falta de ensinar futuros professores de inglês
e discutir com eles teorias de ensino e aprendizagem de LE (língua
estrangeira), bem como as suas adaptações aos contextos multiculturais. Já
recebi agradecimentos de ex-alunos em solenidades de formatura ou até mesmo quando
esses alunos passaram em concursos para serem professores da Secretaria de
Educação, tanto no Piauí quanto aqui no Ceará. Uma das coisas mais gratificantes
nessa vida é ver um ex-aluno ter êxito na carreira do magistério!
Uma das minhas primeiras atividades docentes na Unilab foi ministrar
a disciplina optativa de Língua Inglesa I no curso de Bacharelado em Humanidades
(doravante BHU), uma espécie de curso superior básico, todavia de caráter fundante,
para os estudantes que mais tarde quisessem completar seus estudos nas termalidades
de Antropologia, História, Pedagogia e Sociologia. Outra tarefa foi a de
coordenar e ministrar aulas no Projeto de extensão ENGLISH CLUB. As sementes para a posteridade estavam lançadas ali
naquele projeto de extensão, pois ele foi o embrião de um projeto institucional
que compreende em sua expansão mais de vinte cursos de línguas, com
funcionamento análogo ao das casas línguas sediadas nas principais
universidades brasileiras, como é o caso das Casas de Cultura da UFC.
Pouco tempo depois, eu assumi a coordenação do curso de
Letras-Língua Portuguesa. Lá, ministro de forma orquestrada e com ementas
cuidadosamente preparadas, ao lado dos meus colegas da área, as disciplinas de
Língua Inglesa para Fins Específicos 1, 2 e 3 (ver ANEXO I - Ementas e
Bibliografia).
A primeira turma do curso de Letras-Língua Portuguesa foi
criada em novembro de 2012, o que contabiliza exatamente um ano e seis meses da
minha vigência na coordenação. Aparentemente, pode ser considerado pouco tempo,
mas ao apresentarmos o que já foi feito desde seu início até agora,
entender-se-á a força, a garra e a motivação de todos os profissionais
envolvidos neste grande projeto acadêmico.
[1] A Lei Nº 12.289, de 20 de Julho de
2010,
dispõe sobre a criação da Universidade da
Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.
[2] Minha mãe se formou em História pela
UECE e foi professora dessa mesma disciplina na SEDUC. Entretanto, anos depois,
por causa das exigências do sistema educacional do Estado, ela passou a
ministrar aulas pelo sistema de TV (Teleduc), fato que a desmotivou bastante
porque isso exigia dela habilidades em outras disciplinas como Matemática e
Língua Inglesa, as quais ela não havia se capacitado a ministrar.
[3] Realia: objetos da vida real
usados na sala de aula.
[4] Received Pronunciation (também conhecido como R.P., inglês Oxford
ou Inglês da BBC) é o nome dado ao sotaque padrão da língua inglesa utilizado
no Reino Unido. Estudantes estrangeiros de inglês britânico aprendem essa
modalidade de inglês nas escolas. Dicionários de língua inglesa produzidos no
Reino Unido também adotam o Received
Pronunciation como sotaque padrão (Fonte: Wikipedia)



